quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

QUEREMOS VER JESUS NA ORAÇÃO


I INTRODUÇÃO

Todas as religiões do mundo tiveram as suas escolas de oração, seus métodos e seus orantes. O pedido dos apóstolos a Cristo é revelador a esse respeito. Eles pediram ao Mestre: Senhor, ensina-nos a rezar (Lc 11, 1). Ele lhes ensinou não uma fórmula ou forma, mas um método para se rezar ou orar.
É bom que se diga que a terminologia a respeito desse movimento do ser humano para a divindade vem sempre expresso por palavras significativas: rezar ou orar. Ambos implicam um movimento da palavra ou da oralidade. A palavra é sinal ou sacramento do ser humano, dos seus sentimentos, planos, idéias, desejos e esperanças. Cristo é a oração de Deus, pois é o seu Verbo, sua oralidade, sua recitação de tudo aquilo que Ele deseja e planeja a respeito do ser humano. Em outros termos, Cristo, usando uma linguagem psicológica, é a oralidade do Pai. A nossa oração deve ser igualmente a nossa oralidade, nossa verbalização, exprimindo, sem medidas e sem censura, o que somos e o que sentimos. Em outros termos, a oração é a expressão da nossa perfeita identidade, como Cristo é a encarnação da ipseidade divina [da natureza], ou seja, do próprio ser divino.
Assim sendo, as grandes escolas místicas passaram a denominar esse movimento do humano para o divino de oração ou reza. Algumas línguas são mais precisas a respeito desse dado místico e teológico. Outras apresentam alguns aspectos desse mesmo movimento e têm denominações pobres e desprovidas da grandeza do sentido daquilo que chamamos oração.
a)      O francês chama esse movimento de prier (pedir) – que é apenas um dado do conteúdo desse relacionamento pessoal ou comunitário.
b)      O inglês traduz por prayer (também pedir);
c)      O italiano preghiera etc.
d)     O português é mais rica traduzindo, seja por prece, oração ou reza.
Num mundo extremamente dinâmico e interativado, oferecendo fácil e instantânea comunicação global, onde o homem pensa ter em suas mãos o poder de construir e resolver tudo com a ciência e a tecnologia, onde todos os problemas humanos e os enigmas podem ser resolvidos segundo suas leis, nesse mundo prometeico – pois como Prometeu acredita que roubou o fogo do céu – num mundo assim a oração parece não ter lugar.
Mas, por mais paradoxal que seja, nessa sociedade onde se sente cada vez mais a ausência de Deus do coração do homem, em que a tecnologia tenta explicar tudo, mas não consegue, sente-se a necessidade da oração.
Se não é por razões bem mais profundas, o mundo moderno tenta buscar na religiosidade, portanto, na oração ou na prece, a resposta para tantos dos seus dilemas. Um mundo enfastiado do prazer, do consumo, do ter, do poder, busca com sofreguidão algo ou alguém para respondê-lo em seus questionamentos e saciá-lo em sua fome.
Esse mundo necessita de oração. Não da oração, forma ou fórmula, mas oração tradução do amor do homem para Deus e deste para o homem a tal ponto de se dispor a escutá-lo.
Por essa razão, o grande Hans Küng chamava a oração de grande sacramento do ser humano: sinal de sua dimensão sobrenatural e divina. Para ele, a oração é indispensável e insubstituível, se quisermos ser cristãos e sobretudo sacerdotes.
INTRODUÇÃO
Um dia, Jesus estava orando num certo lugar. Quando terminou, um dos seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou a seus discípulos (Lc 11,1).
A oração é importante. Todos os que querem seguir o Senhor sabem que a oração é parte essencial da vida do discípulo. Entretanto, poucos oram e muitas vezes, quando o fazem, parece que lutam para se expressar a Deus. Embora possa parecer que a oração deveria vir a nossa boca como uma expressão confortável de nossa fé e confiança em Deus, ela freqüentemente parece difícil, talvez ineficaz.
Os primeiros seguidores de Jesus observaram seus hábitos de oração. Eles o viram freqüentemente procurando um lugar deserto para falar com seu Pai. Numa ocasião dessas, eles pediram sua ajuda. Também desejamos comunicar- nos com Deus como seu filho estava fazendo. Senhor, ensina-nos a orar (Lc 11, 1).
Jesus fez como eles pediram. Ele os ensinou como orar, tanto por suas palavras como por seu exemplo. Ele orava freqüentemente, fervorosamente e com grande fé naquele que estava ouvindo aquelas orações. Através do exemplo de sua vida, ele está sempre nos ensinando a orar.

II. ORAR E REZAR

Embora os termos espiritual e teologicamente se eqüivalem, há no entanto uma diferença de métodos ou até mesmo de conteúdo.
a)      Orar – apresenta uma dinâmica pessoal (não meramente subjetiva ou egoísta), individual, que representa o movimento do ser humano para com Deus. Assim frequentemente, vemos Cristo orando e os apóstolos lhe pedem para orar, como vimos, de acordo com o evangelho de Lucas.
b)      Rezar – diz mais respeito a algo existente (devemos ter em mente o verbo latino: recitare, isto é, dizer, falar ou repetir algo já existente ou escrito). Assim dizemos: rezar o terço, rezar o rosário, a novena, o ofício divino. Isto é, antes já existiam as palavras os textos, nós os pronunciamos e os usamos para falar com Deus.
Assim sendo, podemos constatar que orar significa um gesto pessoal, um movimento que parte do interior de cada um, uma fome e uma sede de Deus, que representa o nosso ser e a nossa vida. A oração é a nossa palavra, isto é, a tradução do que somos. Por esta razão, nós não dizemos orar o terço, orar a missa, orar o breviário, orar os salmos.
Há uma pequena diferença, mas importante nos dois movimentos que nos levam a Deus. podemos sentir que os apóstolos pediram ao Senhor que lhes ensinasse a metodologia, a maneira de orar. Foi quando Cristo lhes ensinou o Pai Nosso, não como forma de oração, mas como espírito da oração.
Apesar da distinção, todos os dois tipos de movivmentos são importantes. O ser humano é pessoal, mas também comunidade. Rezar faz parte de nossa dimensão comunitária. Somos povo de Deus. Nós nos servimos das palavras e do patrimônio de toda a Igreja. Assim toda a Liturgia é esse movimento coletivo. No entanto, é indispensável esse contato pessoal com Deus, em que expomos o nossos ser, nossos problemas e dificuldades, em que levamos nossos amigos e suas dificuldades.
Podemos concluir afirmando que o diálogo com Deus pode ser: a) oração e b) prece ou reza. O verdadeiro cristão não pode prescindir destas duas dimensões de seu contato com o Criador. Não podemos ficar apenas na reza (como querem alguns católicos), nem só com a oração (como pretendem outros cristãos).
III. O CONTEÚDO DA ORAÇÃO
A resposta imediata de Jesus ao pedido dos apóstolos é encontrada em Lucas 11, 2-4.
Ele respondeu. Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; dá-nos, a cada dia, o pão cotidiano, e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todo aquele que nos deve; e não nos deixe cair em tentação.
Nem esta oração, nem a semelhante encontrada em Mateus 6, 9-13, são destinadas à mera repetição palavra por palavra. Jesus não estava ensinando palavras para serem memorizadas e recitadas. Ele estava ensinando a orar. Ele deu um exemplo que mostra que tipo de coisas devemos incluir em nossas orações. Devemos:
a) reverenciar e glorificar a deus: Pai, santificado seja o teu nome. Orações de grandes homens e mulheres são sempre proferidas com profundo respeito a Deus. Quando Moisés, Ana, Davi, Daniel, Neemias e outras importantes personagens do Velho Testamento oraram, começaram com declarações de genuína reverência a Deus, como Criador do universo.
b) buscar a vontade de deus: Venha o teu reino. A oração não é um instrumento para manipular Deus para que faça nossa vontade. Aqui, Jesus orou pelo reino de Deus, sabendo que esse reino só poderia vir com todo o seu poder pela sua própria morte. Aqui, como na oração agonizante no Getsêmani, Jesus colocou a vontade do Pai acima de seus próprios interesses: Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres (Mt 26,39). Quando vemos a oração como nada mais do que uma oportunidade de fazer pedidos a Deus, colocamos a vontade do servo indevidamente acima da vontade do Senhor. Deveremos sempre procurar fazer a vontade de Deus.
c) reconhecer nossa dependência de deus para as necessidades físicas: Dá-nos, a cada dia, o pão cotidiano. Esta não é uma exigência de abundância e riqueza. Jesus não praticou nem ensinou a noção materialista de que o discípulo pode “dizer e exigir" o que quer na oração. Diferentemente das orações de certas pessoas hoje em dia, que se aproximam de Deus como crianças mimadas exigindo tudo o que querem, Jesus mostrou aqui uma dependência de Deus para as necessidades básicas da existência diária. Precisamos de Deus sempre.
d) reconhecer nossa dependência de deus para as bênçãos espirituais: E perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todo aquele que nos deve. E não nos deixeis cair em tentação. Encontramos algumas lições valiosas neste versículo de Lucas: 1) Precisamos do perdão. As palavras de João 8,7 e Romanos 3, 23 nos recordam nossa culpa. Pecamos. 2) Só Deus tem o direito e o poder para perdoar (Mc 2,7). Mas, nós também devemos aprender a perdoar. Nossa comunhão com Deus é condicionada a várias coisas, incluindo-se como tratamos as outras pessoas. Quem se recusa a perdoar outro ser humano, simplesmente não será perdoado por Deus (Mt 6,14-15; 18,15-35). 3) Necessitamos do auxílio de Deus para que não pequemos. Deus não é apenas um contador registrando os pecados cometidos e apagando-os depois. Ele tem poder para nos auxiliar a derrotar o inimigo. Paulo garantiu que há um jeito de escapar de cada tentação (1Cor 10, 13). Jesus é poderoso para socorrer os que são tentados (Hb 2,18). Ele nos deixou um exemplo perfeito de obediência para encorajar nossa fidelidade (1Pd 2,21-24). Na hora de sua mais difícil tentação, Jesus voltou-se para seu Pai em oração fervorosa. Depois daquelas orações ele saiu do Getsêmani preparado para suportar o poder das trevas e sofreu o escárnio e a morte para cumprir a vontade de seu Pai. Jesus encontrou o auxílio necessário quando apelou para seu Pai, em oração.

IV. QUANDO ORAR OU REZAR

É o próprio Cristo que nos dá o exemplo e nos ensina os momentos indispensáveis desse diálogo com o Pai. Os evangelhos registram inúmeras passagens de Cristo em oração. Não há hora, nem lugar para Ele orar. Com isso, quis nos mostrar que deve ser permanente e constante esse movimento de intimidade com Deus Pai.
1. Antes de tomar grandes decisões, Cristo ora ao Pai. Assim encontramos Cristo em oração: antes de escolher os apóstolos, ressuscitar Lázaro, no deserto antes de iniciar sua vida pública, antes de curar a sogra de Pedro, no horto das oliveiras, no alto da cruz etc.
2. Em qualquer hora:
2.1. Quanto ao tempo e as horas, é por demais interessante o relato de Marcos, quando ele diz que de madrugada, estando ainda escuro, ele se levantou e retirou-se para um lugar deserto e ali orava (Mc 1, 35);
2.2. Na última ceia, Cristo orou à noitinha, pedindo pelos seus apóstolos que ali estavam com Ele.
3. Em qualquer lugar
Lucas fala que Cristo estando num certo lugar orando, ao terminar, um de seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a orar (Lc 11, 1).

V. CRISTO E O SILÊNCIO

Não resta dúvida que a grande tradição da Igreja e das grandes escolas de espiritualidade, apesar da oração se caracterizar pela sua oralidade ou palavra, colocou a oração cristã no cerne do silêncio. Não raro também encontramos Cristo em pleno silêncio em prece.
Para ilustrar, gostaríamos de relatar uma experiência de São Bernardo, de acordo com os escritos do monge Thomas Merton.
Quando vou a uma floresta, enquanto vou entrando, o rumor de meus passos e o agitar dos ramos das plantas e árvores, que afasto para passar, fazem com que os pássaros e outros animais se aquietem e se escondam temerosos. A floresta parece então um deserto mudo e imperscrutável. Mas, quando me sento e fico silencioso por um bom tempo, aos poucos a floresta começa a mexer-se e a se fazer ouvir, porque as aves ou os pássaros, os animais saem confiantes dos seus esconderijos. Então escuto seus cantos, seus passos, seus gritos e todos os rumores da floresta. E São Bernardo terminava deste modo: Assim é Deus. É preciso fazer um longo e profundo silêncio interior, um silêncio ansioso de ouvir Deus; então aos poucos, Ele começa a falar suave e amorosamente ao nosso coração, que o escuta como discípulo.
A necessidade do silêncio para a oração tem respaldo em todos os textos teológicos, bíblicos, litúrgicos e patrísticos. Assim podemos resumir esta afirmação, ao ler na missa da oitava do Natal, as palavras inspiradas no Livro da Sabedoria: Enquanto um profundo silêncio envolvia todas as coisas e a noite ia no meio do seu curso, desceu do céu, ó Deus, do seu trono real, a vossa Palavra Onipotente  (Sb 18, 14-15).
No silêncio de todas as coisas, no silêncio do universo, Deus se move em direção ao homem, sua Palavra Onipotente vem ao mundo e se faz Carne. Todo o universo silencia, quando Deus se move na direção do homem. O silêncio da criatura diante do Criador é um silêncio de adoração, respeito e atitude de discípulo, que escuta o Mestre e dele aprende as Palavras de Vida Eterna.
As mesmas palavras encontramos no profeta Habacuc: O Senhor está em seu santuário sagrado. Silêncio em sua presença, ó terra inteira  (Hab 2, 20).
Contam-nos os evangelhos que Jesus retirava-se no silêncio da noite e das montanhas para encontrar-se com o Pai na oração. No silêncio do ambiente e do coração, longe dos rumores da vida humana e social, Jesus ouve seu Pai, para depois proclamar a palavra divina: grande mistério, gerado desde toda a eternidade, como escreveu o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: um mistério envolvido em silêncio desde os séculos eternos, agora, porém, manifestado  (Rm 16, 25-26).
Maria, Mãe de Cristo e nossa mãe, modelo de discípula do Senhor, é também modelo de vivência do silêncio. Também ela guardava no silêncio de seu coração as manifestações do mistério do seu Filho, como podemos ler em Lucas 2, 19.
Todos os autores espirituais, os santos e os místicos, através dos séculos, insistiram sobre a importância do silêncio interior e exterior para podermos acolher o mistério de Deus e sermos por ele iluminados.
Para nós também esse silêncio é extremamente necessário, sobretudo nos dias de hoje por motivos importantes:
a)      o mundo de hoje é cheio de rumores, vozes, luzes, imagens, cores, mensagens e contra-mensagens, que nos atraem, fascinam, concentram e fixam nossa atenção, tornando-se desorientador e dispersivo para o nosso espírito e nosso coração. Esse mundo exige de nós momentos de silêncio e de paz, de deserto e oração;
b)      Em nossa vida cotidiana, somos constantemente solicitados, atarefados, com agenda sobrecarregada, estressados e convidados a assumir mais e mais coisas, encargos e responsabilidades. É preciso parar e silenciar para que tenhamos consciência daquilo que dizia Cristo a Marta: Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só (Lc 10, 41-42).
O monge Thomas Merton escreveu: Devemos ser todos um só silêncio numa diversidade de vozes. Deus ama a alegria, mas sua presença é sentida, sobretudo, no silêncio. A Escritura afirma que o Senhor se manifestou a Elias numa brisa serena (1Rs 19, 13). A oração mais bela é a escuta de Deus no silêncio da prece, repete o monge norte-americano, que passava horas diante do sacrário em profunda adoração. É também importante, o que escreveu Angelus Silesius: Se queres sentir a essência da eternidade, primeiro deves privar-te da linguagem. Ninguém fala menos que Deus... pois, desde toda a eternidade pronunciou uma só Palavra: o Verbo Divino.

IV O CONTEÚDO DA ORAÇÃO

As grandes vertentes da espiritualidade e da mística cristã definem a oração como a intimidade com Deus. Que mais poderíamos almejar na face da terra, além da graça divina, do que ser íntimos de Deus? Se temos intimidade com alguém, não há receitas de nosso relacionamento. Por isso mesmo, não acreditamos em diretrizes, normas, métodos e fórmulas para a oração. Reza aquele que se aproximou de Deus, que com Ele fez amizade. A Novo Millenio Ineunte chega a falar em pedagogia da oração e da santidade. Mas, acrescentam que os percursos da oração e da santidade são pessoais e exigem de cada um uma descoberta e uma definição individual.
Cristo e Maria são os grandes orantes da humanidade, pois criaram um grau de intimidade com o Pai. Cristo, na medida, em que é Deus; Maria, enquanto Mãe do Verbo encarnado era detentora da presença e da proximidade do Filho de Deus.
A oração do ponto de vista teológico se compõe deste duplo movimento: ir para perto de Deus e trazer este para perto de nós. Ora, esse movimento e esse processo ninguém poderá definir em nosso lugar ou viver por nós. Ninguém pode dormir por nós, se alimentar por nós etc. A oração está na dinâmica do pessoal e intransferível. Ninguém pode rezar em nosso lugar. Pode até interceder por nós e suplicar por nossos pecados. Mas, esse relacionamento pessoal com Deus é único e exclusivo.
É bom que se diga, logo aqui, que saber rezar ou orar não é simplesmente ser piedoso. Esta é uma atitude externa de respeito às pessoas, às coisas, também ao próprio Deus. Podemos ser piedosos, enquanto oramos. A piedade é a postura externa do orante. Os fariseus eram piedosos, os doutores da Lei também. É uma postura, que pode falar ou não daquilo que estamos vivendo, quando rezamos.
É verdade que não se pode descrever a intimidade. Assim sendo, torna-se muito difícil falar dos tipos de oração. Para quem ama, as coisas não são estanques, cortadas, feitas por cortes. Assim, quem pede algum coisa a outro, é porque confia e ama; quem agradece é porque nutre sentimentos de amor; quem pede perdão, é porque ama. Enfim, o louvor também é um ato de amor.
Deste modo, podemos dividir ou classificar, a oração, nos seguintes tipos:
a)                  Súplica – porque somos íntimos, ousamos pedir. Assim dizemos antes de rezar na missa o Pai-Nosso;
b)                 Respeito – quem ama, nutre um profundo respeito. E quem respeita, exalta e louva o amado. É a oração de louvor e de adoração;
c)                  Contemplação – quem ama, perde-se na contemplação, na admiração da grandeza e da beleza da pessoa amada. É a prece de contemplação. Admiramos e exaltamos a grandeza de Deus. Ficamos maravilhados com tudo o que Ele é e representa para cada um de nós.
Resumindo: A oração cristã é um ato de amor. Cristo foi o grande orante de toda a história da humanidade, porque amou em plenitude. Maria é chamada de modelo de oração, pois toda a sua vida foi um ato de amor profundo. Esse amor transforma-se em serviço, disponibilidade, compaixão, presença, mudança. Ele tem muitas faces. Assim toda a vida de Cristo foi uma oração, porque foi um ato de amor. Vejamos e contemplemos:
·        o amor com que tratava as pessoas, acolhendo-as e buscando ajudá-las (às vezes, rezamos mal, porque não tratamos bem os outros);
·        o amor com que curava os enfermos (o doente é carente, sobretudo de Deus: Senhor da Vida e às vezes nos recusamos a vê-los);
·        o amor com Ele falava do seu Pai (quem não se maravilha diante da grandeza do pai. Perdemos talvez essa capacidade e por isso rezamos mal);
·        o amor com que falava as multidões (amar e respeitar os que nos ouvem, isso nos leva a rezar bem);
·        o amor que Cristo demonstrou no Lava-pés, um amor de diaconia;
·        o amor que é mais forte do que a infidelidade e a traição de Judas e de Pedro;
·        o amor incondicional e sem limites que chega ao ponto de dar a vida no altar da cruz;
·        o amor que toma a iniciativa de escolher seus apóstolos, dizendo: não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15, 16);
·        o amor perene pela sua Igreja, concretizado no envio do Espírito Santo e na garantia de nunca nos deixar sós;
·        o amor com que se uniu a nós, seus discípulos, como a videira e os ramos;
·        o amor com que perdoou pecadores e até seus algozes no alto da cruz;
·        o amor que se entregou por nós na Eucaristia, como sacramento de sua presença e companhia;
·        o amor com que aceitou a paixão do Getsêmani;
·        o amor com que morreu na cruz em fidelidade ao Pai e para nos salvar;
·        o amor com que tratou os apóstolos, os discípulos, as mulheres, e em especial Pedro, depois de sua ressurreição.
Sim, toda a vida de Cristo foi um ato de amor. E quem realmente ama de verdade, tem tempo para dedicar ao amado. Quem ama profundamente, tem sempre o que dizer e falar ao amado ou amada. Vejamos os namorados, esposos, amantes. Não lhes faltam assuntos, conversas. Assim, se nós amamos realmente Deus, há sempre o que dizer, o que agradecer, o que pedir e sobretudo o que se maravilhar diante de sua infinita bondade e misericórdia para conosco.
V ORAÇÃO DA COMUNIDADE OU COMUNITÁRIA
Deus é Pai de todos, Cristo Irmão de toda a humanidade. Por essa razão, todos nós fazemos jus e temos a nossa intimidade com Deus. Somos e devemos ser orantes. Mas, não vivemos isoladamente. Somos humanidade e somos Povo de Deus (Igreja).
Por essa razão, a oração cristã teologicamente deve ter essa dimensão comunitária. A fundamentação de sua origem bíblica e teológica pode ser encontrada no Pai-Nosso. Tertuliano e Tomás de Aquino chegam a dizer que ela é a mais perfeita de todas as orações. Ali, Cristo nos ensina a rezar como um povo e como família. Isso nós constatamos no plural das invocações e súplicas. Mas, não é apenas a forma plural que ali encontramos. A estrutura do Pai Nosso nos mostra que primeiramente deve vir a situação e a realidade da comunidade. Em segundo plano aparecem as nossas situações individualizadas.
Particularmente, não somos chegados a falar de método ou pedagogia da oração, pois sendo ela intimidade com Deus, não há regras que a definam. Podemos estabelecer métodos para se namorar ou amar? No Pai-Nosso, encontramos esse duplo movimento: a certeza de que temos um Pai que se volta para nós e nos escuta; o humano que se volta para Deus, lhe suplica, louva-O e O adora. Assim, nas primeiras invocações dessa oração, temos uma expressão de adoração, louvor e agradecimento: santificado seja o teu nome, venha o teu reino, seja feita a tua vontade (Mt 6, 10). Em seguida, encontramos um contexto de súplica e pedido de perdão.
VII CONCLUSÃO
Cristo rezou, como Filho do Pai, Irmão de toda a humanidade, mas sobretudo como Pastor. O Bom Pastor que se sente responsável pelo destino de suas ovelhas. A parábola do Bom Pastor mostra que Cristo ama. A imagem, de acordo com alguns apócrifos, é de autoria de São João. A representação iconográfica mostra-nos sempre o pastor com uma ovelha em seus braços, símbolo da misericórdia e da ternura divina.
A oração é amor e um ato de amor. Rezamos porque amamos e por quem amamos. O Cura d’Ars rezava dias inteiros pelos seus paroquianos e dizia em sua simplicidade: É por eles, Senhor, que estou aqui.

SENHOR, TU ÉS A MINHA LUZ

Suplico-te, Senhor,
ilumina a minha lâmpada, que é a oração.
Luz que custa a acender-se
e que não ilumina como eu gostaria.
Eu te peço, Senhor, de fazê-la resplandecente,
e, com maior audácia, desejaria
tornar minhas as palavras de Davi:
“Tu és a minha lâmpada”.
Não irei, então, preocupar-me muito
com a minha oração,
na certeza de que Tu és a minha lâmpada,
o sol da minha vida.
Concede-nos, Senhor nosso Deus,
o dom de entender o mistério da nossa oração,
o mistério da cultura da devoção,
a partir da tua luz que nos ilumina
CARDEAL MARTINI






  Pe João Medeiros Filho

Consultor acadêmico da Faculdade Dom Heitor Sales

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