quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Igreja, Sacramento de Cristo na Terra

A Igreja não é a humanidade, mas é constituída por uma parcela significativa da mesma. Tampouco é o Reino de Deus, pois este é a comunhão universal da humanidade assumida e incorporada na família da Santíssima Trindade. Isto significa que Igreja e Reino de Deus não são realidades coincidentes, embora haja entre estas duas realidades uma relação privilegiada. Na verdade, a Igreja é o sacramento do Reino de Deus. Ela é realidade histórica; enquanto o Reino, embora esteja a emergir na história, atinge a sua plenitude na transcendência que está para além da história.
1. CARÁTER SACRAMENTAL
Devido a seu caráter de sacramento, a Igreja pertence à história. O Reino, pelo contrário, encontra sua plenitude na comunhão humano-divina, a qual é eterna e onde já não existem sacramentos.
A Igreja nasceu como comunhão orgânica e dinâmica de pequenas comunidades. Nelas, a lei era a comunhão fraterna animada pelo Espírito Santo. Dizem os Atos dos Apóstolos: As Igrejas gozavam de paz (…). Cresciam e fortaleciam-se, vivendo no temor do Senhor, repletas da consolação do Espírito Santo (At 9, 31). Esse livro, de autoria de Lucas, apresenta uma descrição idealizada daquilo que deve ser uma comunidade animada pelo Espírito Santo:
Os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, dividindo o preço entre todos, segundo as necessidades de cada um (At 2, 44-45).
São Paulo tinha uma consciência muito clara de que a cabeça das Igrejas é Cristo ressuscitado, que atua nelas pelo Espírito Santo:
Todos fomos batizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo, judeus e gregos, escravos e livres. Todos bebemos de um só Espírito. De fato, o corpo não se compõe de um só membro, mas de muitos (1 Cor 12, 13-14).
Devido à união orgânica que existe entre Cristo e as comunidades cristãs, São Paulo afirma que elas são o Corpo de Cristo. Falando assim, o Apóstolo dos Gentios queria dizer que a união entre os cristãos não pode existir se não estiver fundamentada em Cristo ressuscitado.
O Concílio Vaticano II descreve a ligação sacramental da Igreja a Cristo, declarando ser ela o sinal de que a história humana entrou na plenitude dos tempos, isto é, na fase de seu aperfeiçoamento. Assim falando, o Concílio quis afirmar que a humanidade está na fase da divinização. Em outras palavras, graças à Encarnação do Filho de Deus, o divino enxertou-se no humano, para que a humanidade fosse divinizada. A divinização do homem acontece mediante a interação entre Deus o homem, na medida em que este é assumido e incorporado na família divina, isto é, a Santíssima Trindade (Rm 8, 14-16; Gl 4, 4-7).
A Igreja está convocada a ser o sacramento, isto é, o sinal visível desta união orgânica da humanidade e da divindade, como diz o Concílio Vaticano II:
 A luz dos povos é Cristo. Por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar a todos os homens com a luz deste mesmo Espírito. Esta luz resplandece no rosto da Igreja, a qual está chamada a anunciar o Evangelho a toda criatura (LG 1).
2. IGREJA E MISSÃO
A fé na missão de Igreja é parte integrante da fé em Jesus Cristo ressuscitado, que é cabeça da mesma Igreja:
Deus dispôs o Corpo de modo a conceder maior honra aos membros mais frágeis, a fim de não haver divisão no corpo, mas antes providenciando para todos os membros tenham igual solicitude uns para com os outros. Se um membro sofre todos os membros partilham o seu sofrimento. Se um membro é honrado, todos os membros partilham a sua alegria. Ora vós sois o corpo de Cristo e seus membros, cada um com a parte que lhe toca (1 Cor 12, 24-27).
Como sacramento do plano universal da salvação de Deus, a Igreja exprime o insondável desígnio da bondade e sabedoria de Deus, que nos chamou à participação da vida divina (LG 2). Tal participação é comunhão orgânica com o Pai e seu Filho, Jesus Cristo (1Jo 1,2-3; DV 1-2). O princípio que anima esta união é o Espírito Santo, a seiva que torna fecundos os ramos que estão unidos à cepa (Jo 15, 4-6). A Igreja é o sacramento, isto é, explicitação e corporização deste projeto amoroso de Deus em favor de toda a humanidade. Ela é também a mediação de comunicação e encontro do Senhor ressuscitado e do seu Espírito com o mundo.
Como sabemos, o ser humano, na sua realidade essencial é eterno, pois é uma realidade espiritual. Mas esta se comunica com os outros através do corpo. Como sabemos, Cristo ressuscitado, após a sua Ascensão ao céu, já não tem aqui na terra um corpo físico para se encontrar visivelmente com as pessoas, por isso criou a Igreja como seu sacramento e seu corpo. Eis a razão pela qual Cristo faz da Igreja o seu corpo, isto é, mediação de encontro com o mundo. Em outras palavras, a Igreja é mediação para poder acontecer o encontro entre Cristo e o mundo. Este conhecerá de Cristo apenas o que captar através da Igreja. Eis o coração da dimensão sacramental da Igreja.
O Concílio Vaticano II diz que a dignidade do homem e a sua verdade estão na sua vocação à comunhão com Deus (GS 19a). Além disso, esta comunhão é realizada historicamente e de modo singular em Jesus Cristo (LG 2). O Filho de Deus assume a natureza humana para nos fazer participar da natureza divina, acrescenta o mesmo Concílio (AG 3). Ao se encarnar – o Verbo de Deus se fez carne (Jo 1, 14) – o Filho de Deus uniu-se organicamente à humanidade, tornando possível, deste modo, a plena realização fundamental do ser humano, isto é, ser incorporado na comunhão da Santíssima Trindade.
Foi para isto que Jesus nos trouxe as primícias do Espírito Santo, como diz São Paulo na Carta aos Romanos (Rm.8,23). De fato, continua o Apóstolo dos Gentios, o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Só com a força do Espírito Santo nós somos capazes de cumprir a lei nova do amor (Rom.8,1-11). Como diz o já citado Concílio Vaticano II, aquilo que Jesus Cristo fez de uma vez por todas, atualiza-o agora o Espírito Santo (LG 48).
Como sacramento e Corpo Místico de Cristo, a Igreja é a mediação desta atualização da reconciliação com Deus na marcha da História.  Como princípio animador de relações e vínculo de comunhão orgânica, o Espírito Santo anima as relações de comunhão dos membros da Igreja entre si.
Ao mesmo tempo capacita a Igreja para ser mediação de encontro e comunhão da humanidade com o Salvador. A comunhão dos membros da Igreja entre si, diz o Concílio, é participação na própria comunhão da Santíssima Trindade (LG 4).
Por nascer de Deus uno e trino, a Igreja é mistério de comunhão e sacramento do desígnio salvador e universal de Deus que é um desígnio de comunhão: reunir todos os homens na mesma e única família dos filhos de Deus (LG 1,4b; 6e,17; AG 2b; GS 40b,41,45a).
3. IGREJA E COMUNHÃO
O mistério da Igreja não cabe em uma única definição, pois são muitos os elementos de que é constituída. Eis a razão pela qual o Concílio fala da Igreja, algumas vezes, como povo de Deus, outras, como Corpo de Cristo e outras como Templo do espírito Santo (LG 17).
A Igreja é, pois, um mistério de comunhão. O termo quer dizer comunicação de vida e alicerce histórico para edificação da comunhão universal. Trata-se de uma comunhão de vida, de caridade e verdade (LG 9b). A palavra comunhão é a mais apropriada para designar o ser da Igreja de Cristo.
O essencial, portanto, não é sua estrutura, mas sua essência e seu mistério, pelos quais a Igreja tem origem e pelos quais vive. O primeiro capítulo da Lumen Gentium diz que se trata da realidade transcendente da salvação que se revela e se manifesta de modo visível na Igreja (LG 8b).
Como sacramento da união com Deus, a Igreja é também sacramento da união mútua dos cristãos no Espírito de Cristo e fermento de unidade de todo o gênero humano (LG 1).
Devido à sua dimensão sacramental, a Igreja está na história, mas ao mesmo tempo a transcende, pois está sacramentalmente unida a Cristo como seu corpo. Só com os olhos da fé se pode ver, na sua realidade visível, que ela é ao mesmo tempo uma realidade espiritual, portadora de vida divina.
A Igreja é uma assembléia visível e uma comunidade espiritual. Como Corpo de Cristo, a Igreja e Cristo constituem uma unidade sacramental e orgânica.
A Igreja é, por essência, carismática, porque o Espírito santo está na sua origem e a constitui (LG 4a). É o Espírito quem a conduz e a garante na comunhão. A instituição na Igreja, sendo uma realidade humana, tem, todavia, origem no dom sobrenatural do Espírito com vistas ao bem comum.
4. IGREJA E ESPÍRITO SANTO
A Igreja é uma realidade espiritual, mas também social. É ao mesmo tempo carismática e institucional. Tudo nasce de Deus mediante os dons do Espírito Santo. Estes, por seu lado, concretizam-se em ministérios institucionalizados, serviços e funções (LG 4a,7cf,18a; UR 2b) no corpo de Cristo que é a Igreja.
O Concílio Vaticano II denomina a Igreja como sacramento universal de salvação (LG 48b).  Sacramento, isto é, explicitação e mediação da união íntima de Deus com o gênero humano (LG 1). E como sacramento, a Igreja é a visibilidade da unidade salvífica que une organicamente a humanidade com a Divindade, comunidade familiar de três pessoas (LG 9c). Através da Igreja Cristo manifesta e visibiliza o mistério do amor de Deus para com a humanidade (GS 45a).
Concluimos que a Igreja é uma mediação da salvação de Cristo e, portanto, não deve ser entendida como um mecanismo externo à dinâmica salvação. Ela exprime na história o acontecimento de Jesus Cristo e a dinâmica da salvação a acontecer na marcha da humanidade pela ação do Espírito Santo. Sem a Igreja, a História Humana estaria profundamente empobrecida, pois ficaria privada da consciência teologal, isto é, da dinâmica revelacional do projeto salvador de Deus.

Pe. João Medeiros Filho 
Consultor Acadêmico da Faculdade Dom Heitor Sales


Para citar esse artigo:
Pe. João Medeiros Filho - "Igreja, Sacramento de Cristo na Terra".
hhttp://formacaodiscipulosdamaededeus.blogspot.com/2011/11/igreja-sacramento-de-cristo-na-terra.html
Online, 02/11/2011

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